Ata do Comef aponta avanço dos FIDCs no financiamento empresarial, mas alerta que estruturas complexas podem dificultar a avaliação dos riscos.
O Banco Central elevou o nível de atenção sobre o mercado de crédito e, especialmente, sobre estruturas de fundos que podem dificultar a identificação das exposições financeiras. A ata da 66ª reunião do Comitê de Estabilidade Financeira (Comef), divulgada em 2 de setembro, mostrou preocupação com o endividamento de famílias e empresas, a elevação das despesas financeiras e a possibilidade de que os riscos de crédito permaneçam elevados nos próximos trimestres. Ao mesmo tempo, o documento destacou um movimento importante para o mercado de capitais: os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) mantiveram aceleração e ampliaram sua participação no crédito utilizado pelas empresas.
A combinação desses fatores cria uma questão relevante para investidores, gestores e originadores: como aproveitar a expansão dos FIDCs sem aumentar a exposição a estruturas pouco transparentes? O alerta do BC não representa uma restrição específica aos fundos, mas sinaliza que governança, rastreabilidade dos ativos, análise de crédito e compreensão das conexões entre diferentes veículos financeiros devem ganhar ainda mais importância. Para empresas que dependem de recebíveis para obter capital, a discussão também pode influenciar a forma como novas operações serão estruturadas.
Por que o Banco Central está preocupado com estruturas complexas de FIDCs
O ponto central do alerta do Comef está nas estruturas formadas por múltiplas camadas de fundos de investimento. Em determinados modelos, um fundo pode adquirir cotas ou ativos de outro veículo, que por sua vez possui exposição a outras carteiras, empresas ou direitos creditórios. Essa cadeia pode ser legítima e economicamente eficiente, mas aumenta a dificuldade de identificar quem está efetivamente exposto ao risco de determinado ativo quando ocorre um evento de crédito. O problema, portanto, não está simplesmente na existência de estruturas sofisticadas, mas na possibilidade de que sua complexidade dificulte a consolidação das informações.
A preocupação ganha dimensão maior no caso dos FIDCs porque esses fundos vêm ampliando sua presença no financiamento empresarial. Segundo o Comef, os FIDCs aceleraram no trimestre e aumentaram sua participação no chamado crédito amplo, ao mesmo tempo em que mantêm conexões relevantes com instituições reguladas pelo Banco Central por meio da cessão de ativos e do investimento em cotas. Isso significa que um problema localizado em determinada carteira pode ter efeitos que ultrapassam o fundo originalmente envolvido, dependendo das relações financeiras existentes entre os participantes.
Esse cenário ajuda a explicar por que a transparência se tornou um fator tão importante para a indústria. Para o investidor, não basta conhecer a rentabilidade esperada de uma cota de FIDC. É necessário entender a origem dos recebíveis, os principais devedores, os critérios de elegibilidade, a concentração da carteira, os mecanismos de subordinação e as estruturas utilizadas para proteção contra perdas. Quanto mais complexa for a cadeia de ativos e fundos, maior tende a ser a necessidade de informações que permitam reconstruir a exposição econômica efetiva.
O aumento do risco de crédito pode mudar a análise das carteiras
O alerta sobre os FIDCs ocorre em paralelo a uma deterioração de indicadores de crédito no sistema financeiro. Dados do Banco Central mostram que a inadimplência no crédito livre chegou a 6,4% em julho, maior nível da série histórica iniciada em 2011. Entre as empresas, a taxa alcançou 4,2%, enquanto nas pessoas físicas chegou a 7,8%, reforçando a percepção de que o ambiente de crédito continua exigente. O estoque total de crédito do sistema financeiro chegou a R$ 7,4 trilhões no período, evidenciando a dimensão da carteira sobre a qual esses riscos se distribuem.
Para os FIDCs, o avanço da inadimplência não significa necessariamente perda automática de rentabilidade. Fundos podem utilizar diferentes mecanismos para administrar o risco, incluindo subordinação, diversificação de sacados, critérios de aquisição e políticas específicas de cobrança. Entretanto, um cenário de deterioração econômica pode aumentar a frequência de atrasos e renegociações, exigindo que gestores acompanhem de maneira mais próxima a qualidade dos recebíveis. Em carteiras concentradas ou expostas a empresas mais frágeis, uma piora simultânea de vários devedores pode produzir impacto muito maior do que o indicado por uma análise superficial da rentabilidade.
Para as empresas, especialmente pequenas e médias, o cenário apresenta uma consequência dupla. De um lado, o crescimento dos FIDCs amplia as alternativas ao crédito bancário tradicional e pode permitir que recebíveis sejam transformados em liquidez de maneira mais estruturada. De outro, quanto maior a percepção de risco, maior tende a ser a seletividade dos investidores e o cuidado dos originadores na formação das carteiras. A qualidade das informações financeiras da empresa, o histórico de pagamento dos clientes e a previsibilidade dos recebíveis podem se tornar diferenciais importantes para conseguir melhores condições.
O próprio Banco Central ressaltou que a situação das empresas merece atenção. A ata apontou redução no número de companhias que apresentaram crescimento do lucro líquido, enquanto aumentou a quantidade de empresas com elevação da despesa financeira líquida. Além disso, níveis elevados de ativos problemáticos e de probabilidade de default indicam que a materialização do risco de crédito deve continuar elevada. O resultado é um ambiente no qual a análise do fluxo de recebíveis passa a ser tão importante quanto a análise tradicional do balanço empresarial.
Transparência pode virar diferencial competitivo no mercado de crédito
A mensagem do BC pode acelerar uma tendência de profissionalização da indústria de crédito estruturado. Gestores de FIDCs, administradores, consultorias, securitizadoras e originadores tendem a enfrentar maior pressão para demonstrar de forma clara como os ativos são selecionados, registrados, monitorados e cobrados. Isso inclui aprimorar processos de due diligence, acompanhar alterações na qualidade dos sacados e identificar rapidamente mudanças na concentração de risco. Em um ambiente mais complexo, tecnologia e dados podem deixar de ser apenas ferramentas de eficiência e passar a ser componentes essenciais da governança.
Essa mudança também pode beneficiar investidores que sabem interpretar a estrutura dos fundos. Um FIDC com carteira pulverizada, controles robustos e mecanismos claros de proteção pode apresentar perfil de risco bastante diferente de outro fundo com rentabilidade semelhante, mas maior concentração ou estruturas difíceis de mapear. A comparação, portanto, precisa ir além do retorno projetado e considerar a relação entre risco, qualidade dos recebíveis, liquidez das cotas e mecanismos de absorção de perdas. O alerta do Comef reforça justamente a necessidade de compreender a exposição econômica completa antes de avaliar uma oportunidade.
Outro ponto importante é que o BC não identificou uma fragilidade generalizada do sistema financeiro. Na avaliação divulgada anteriormente pelo Comitê, os níveis de capital e liquidez permaneciam acima dos requisitos prudenciais, e os testes de estresse indicavam capacidade de absorção de choques. O ACCPBrasil, instrumento contracíclico de capital, permaneceu em zero, enquanto o Banco Central continua acompanhando a evolução do crédito, das condições financeiras e dos riscos sistêmicos.
Para os próximos meses, a combinação entre juros ainda elevados, maior inadimplência empresarial e expansão dos FIDCs deve manter o foco na qualidade das carteiras. A tendência é que investidores valorizem cada vez mais fundos capazes de apresentar dados claros sobre lastro, concentração e mecanismos de proteção, enquanto empresas precisarão melhorar a organização financeira para acessar estruturas de crédito competitivo. Ao mesmo tempo, a indústria pode ganhar espaço justamente por oferecer alternativas ao financiamento bancário, desde que consiga combinar crescimento com governança e transparência. O alerta do Banco Central, nesse sentido, funciona menos como um freio aos FIDCs e mais como um sinal de que a próxima etapa de expansão do setor dependerá da capacidade de tornar o risco mais visível, mensurável e administrável.