Peixe do Pantanal não pede o mesmo preparo do peixe do mar

Damien Bellard
5 Min Read
Wilson Bachega Junior

Pintado, pacu e dourado, os peixes mais comuns nas águas do Pantanal, carregam mais água e mais gordura na carne do que a maioria dos peixes de mar. Essa diferença muda tudo na cozinha, do tempo de fogo ao tempero certo, mas grande parte de quem cozinha peixe de rio ainda segue receita pensada para peixe de mar.

Esse hábito, como comenta Wilson Bachega Junior, entusiasta da culinária pantaneira, não está na receita em si, mas na suposição de que peixe é peixe, não importa de onde venha. Essa suposição explica boa parte dos pratos de peixe de rio que saem secos, com gosto de terra ou desmanchando na frigideira.

O erro mais comum: tratar peixe de rio como peixe de mar

Peixes de água salgada perdem líquido para compensar o sal do ambiente onde vivem, o que deixa a carne naturalmente mais firme e concentrada. Peixes de água doce fazem o processo inverso, absorvem água ao longo da vida, e por isso a carne chega à panela mais úmida, mais macia e mais sujeita a se desfazer com calor excessivo.

Aplicar o mesmo tempo de forno ou a mesma potência de fogo dos dois tipos é receita para prato ressecado de um lado ou desmanchado do outro. Reconhecer essa diferença antes de acender o fogão já evita boa parte dos erros mais frequentes na cozinha.

Por que aparece o gosto de terra e como resolver?

O chamado “gosto de terra” vem de compostos naturais presentes no fundo de rios e lagos, absorvidos pela pele e pelas brânquias de espécies que vivem perto do leito, como algumas variedades de pacu. Isso não é sinal de peixe estragado, é característica do ambiente em que ele viveu.

Wilson Bachega Junior
Wilson Bachega Junior

Retirar bem a pele e a linha escura de sangue ao longo do filé resolve boa parte do problema, como destaca Wilson Bachega Junior ao falar da tradição pantaneira de preparar peixe recém-pescado. Um banho rápido em limão ou vinagre antes do preparo, sem exagerar no tempo para não cozinhar a carne antes da hora, também ajuda a suavizar esse sabor sem mascará-lo.

Escolher o método errado para cada espécie

Nem todo peixe do Pantanal aguenta o mesmo tipo de fogo. O pacu, mais gordo, se sai bem na grelha ou na brasa, porque a própria gordura protege a carne do ressecamento. O pintado, de carne branca e mais magra, tende a secar no mesmo processo e funciona melhor em caldeiradas, moquecas ou frito em porções menores.

Tal como nota o entusiasta Wilson Bachega Junior, esse detalhe geralmente passa despercebido por quem só conhece receita de peixe de mar: aplicar a grelha simples do robalo ou do salmão a um pintado geralmente resulta em carne dura por fora e sem suco por dentro.

Errar no tempo de fogo pela textura mais delicada

Como a carne de água doce se desmancha mais rápido, o tempo de cozimento precisa ser menor do que o usado para peixe de mar de porte parecido. Um filé de pintado, por exemplo, costuma ficar pronto em poucos minutos a mais de fogo médio, e passar do ponto é questão de segundos, não de minutos.

A prática mais segura, aponta Wilson Bachega Junior, é testar o ponto com um garfo antes do tempo total previsto na receita, ajustando conforme a espessura real do filé, e não pelo relógio, o que garante consistência entre um preparo e outro.

Cozinhar o peixe que se tem, não o peixe da receita

Boa parte da frustração na cozinha nasce de tentar reproduzir, com um ingrediente, uma técnica pensada para outro. Peixe de rio pede atenção à origem, ao tipo de gordura e à textura da carne, não uma adaptação forçada de receita estrangeira ou litorânea.

Respeitar essas diferenças transforma um prato que poderia sair seco ou com sabor estranho em uma refeição que aproveita exatamente o que aquele peixe tem de melhor. No fim, a melhor receita para peixe de rio é a que parte do próprio rio, não da geladeira do supermercado de outra região.

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